Pela Autonomia

 

Não são aves raras por cá, ao contrário do que se passa na Grã-Bretanha. Não têm cores cintilantes como um guarda-rios. E quando cantam? Que banalidade.

Ainda se fosse o pardal-espanhol, que se avista lá para o Sul e, mesmo sem bater castanholas, lança um ar de flamengo...

Mas ali estava ele, um macho de pardal, a chamar a atenção sobre as páginas do livro, numa tarde amena de Verão, além da janela. Cantavam numa só direcção e parecia prender algo no bico.

mão posta na máquina fotográfica, tudo vale a pena, se a alma não é pequena dizia o poeta: clic, clic.

Ampliação imediata, vê-se uma lagarta presa no bico da ave estabilizada na pereira desfolhada fora de tempo: visibilidade perfeita, sem folhas a toldarem os pormenores.

Sempre virado para o mesmo lado, o pardal pia, insistente, e percebe-se a resposta de uma cria, fora de vista.

A presença do observador preocupa, mas não interrompe o comportamento evidente: o adulto agita as asas como uma cria e parece dizer-lhe "Vê lá se voas ou passas fome".

Faz-se mais luz. O pardal está a forçar a cria a voar até ele. Acena-lhe com o prémio, a saborosa lagarta. Juvenil teimoso ou inocente, era como se dissesse desta vez ao pai: "Vá lá porta-te bem! Traz a lagarta ao meu biquinho como sempre fizeste".

O pai não cedeu, inflexível.

Estava à vista o desenvolvimento da autonomia da cria, tal qual nós, humanos, fazemos. Em tempos pensou-se que só a nossa espécie teria o exclusivo destas práticas educativas, mas está visto que não é assim.

Especialistas da área da pedagogia dizem que educar é basicamente desenvolver potencialidades. Mas mais certo ainda é que não foi a nossa espécie que primeiro deu o pontapé de partida.

Texto e Fotos: JG
Publicado na revista Parques e Vida Selvagem n.º 28 - 21 de Junho a 21 de Setembro

 

 

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